Por que Lula passou a destacar “para o povo trabalhador, a proteção; para o bandido, a prisão”, enquanto Flávio Bolsonaro reforça que vai manter o Bolsa Família e fala de políticas para mulheres? Não é sobre qual proposta é melhor — isso é debate para outro lugar. É sobre comunicação: o segundo turno de 2026 virou uma disputa pelos códigos que cada campanha usa para construir significado.
Aviso editorial: este texto é uma análise de comunicação e identidade de marca, não um material de campanha nem um endosso de candidato. As duas campanhas aparecem aqui com o mesmo espaço e o mesmo critério — o objetivo é entender como cores, palavras e temas constroem significado, não avaliar propostas de governo.
Lula Desloca o Discurso Para a Segurança
Segundo o Poder360 (07/10/2026), Lula passou a dar mais ênfase à segurança pública em seus discursos de campanha — um deslocamento de linguagem em relação aos temas que costumam dominar a comunicação do PT. Junto com isso, a campanha reforça uma identidade visual que combina verde, amarelo e azul ao lado do vermelho tradicional.

Esse ponto merece precisão: a identidade tricolor não nasceu no segundo turno. O próprio Poder360 já registrava essa paleta em 15/08/2026, semanas antes da votação do primeiro turno. O que está em jogo não é uma reformulação de cor de última hora — é como a mesma identidade visual, já em uso há meses, ganha mais peso no momento em que o discurso também se desloca. Se você quer entender por que uma cor carrega tanto significado político, psicologia das cores no branding é o ponto de partida: cor nunca é só estética, é associação construída ao longo do tempo.
O Precedente de 2018: Quando Haddad Reduziu o Vermelho
Esse tipo de movimento tem precedente. Em 2018, segundo a Folha de S.Paulo (10/10/2018), Fernando Haddad reduziu de fato o vermelho do material de campanha e passou a usar mais as cores da bandeira entre o primeiro e o segundo turno. Não é o mesmo contexto nem a mesma cronologia do que acontece agora — ali houve uma mudança real de paleta entre turnos; aqui, a paleta tricolor já estava em uso antes da votação. A comparação não serve para igualar os dois casos, serve para mostrar algo mais simples: uma cor pode carregar um significado político muito maior do que a estética sozinha explica.
Flávio Reforça Programas Sociais e Pauta Feminina
Do outro lado, a campanha de Flávio Bolsonaro reforçou a promessa de manter programas como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida — negando qualquer plano de privatizar Petrobras, Banco do Brasil ou Caixa, segundo a UOL (08 e 09/10/2026). Na mesma semana, Flávio participou de um encontro com eleitoras no Rio de Janeiro em que falou sobre inclusão, mães de crianças atípicas e participação feminina na política, de acordo com a Itatiaia (10/10/2026).

Também aqui vale a mesma precisão aplicada ao caso de Lula: essa pauta voltada ao público feminino não começou no segundo turno. A CNN Brasil já registrava esse mesmo aceno na campanha de Flávio em 11/04/2026 — meses antes do primeiro turno. O que muda agora não é o tema, é o grau de destaque que ele recebe dentro do repertório de comunicação da campanha.
Duas Campanhas, Dois Repertórios Diferentes
Juntando os dois lados: nenhuma das duas campanhas está necessariamente mudando de ideologia ou de proposta de governo — o TSE mantém o registro das propostas formais de cada candidato, e é ali que qualquer comparação de conteúdo programático deveria se apoiar, não no discurso publicitário do horário eleitoral. O que está mudando é a ênfase: cada campanha está escolhendo, dentro de um repertório de temas e símbolos que já existia antes do segundo turno, quais elementos ganham mais tempo de tela e mais destaque no momento decisivo da disputa.
Isso é, no fim das contas, um exercício de storytelling de marca — não no sentido de inventar uma história nova, mas de decidir qual parte de uma história já contada merece ser repetida com mais força agora. A matéria-prima (o tema, a cor, a frase) continua a mesma; o que se repete e amplifica é a escolha editorial de cada campanha sobre si mesma.
Vale notar que nenhuma das duas escolhas é neutra ou automática. Destacar segurança pública em vez de outro tema qualquer, ou destacar pauta feminina em vez de outro recorte social, é decisão editorial — e decisão editorial sempre comunica algo sobre quem a toma, mesmo quando o conteúdo em si não é novo. Esse é o motivo pelo qual duas campanhas podem usar o mesmo repertório de temas há meses e, ainda assim, parecer que “mudaram de estratégia” só porque alteraram o volume de cada tema no mesmo período.


A Lição de Branding: Significado Não é Fixo
Aqui está a lição que interessa para qualquer marca, não só para campanha eleitoral: palavras, cores e temas não têm um significado fixo embutido neles. “Segurança” significa uma coisa vinda de um lado do espectro e outra coisa vinda de outro. Verde e amarelo, sozinhos, não pertencem a ninguém — o significado que carregam depende de quem os usa, em que momento, e de quem está interpretando do outro lado. O mesmo vale para um símbolo de marca comercial: a pergunta certa nunca é “que cor/palavra/símbolo devo usar”, é “que significado esse elemento vai carregar no contexto em que meu público vai vê-lo”. Para aprofundar como um elemento visual simples carrega esse tipo de peso, vale revisitar símbolo ou wordmark: a escolha do tipo certo de marca visual já é, por si só, uma escolha de significado.
Antes de perguntar qual campanha — ou qual marca — “comunica melhor”, vale entender primeiro que significado cada uma está tentando construir, e para qual público. Essa é a pergunta que efetivamente importa, e é a mesma pergunta que toda marca comercial deveria fazer antes de escolher sua próxima palavra de ordem.
Para o seu negócio, o recorte prático é este: revise o seu próprio repertório de palavras, cores e temas periodicamente — não porque ele esteja errado, mas porque o significado que ele carrega hoje pode não ser o mesmo que carregava quando foi criado. Contexto muda, público muda, e o significado de um símbolo muda com os dois. Marca que nunca revisita esse repertório corre o risco de estar comunicando um significado que já não controla mais.




