O Novo Logo da McLaren é Mais Antigo Que a Própria Marca

A McLaren foi buscar o logo novo em 1920, não em 2026. Será que a sua marca teria essa coragem?

O Novo Logo da McLaren é Mais Antigo Que a Própria Marca

Na quarta-feira, 24 de setembro, a McLaren apresentou a primeira identidade visual compartilhada entre a equipe de Fórmula 1 e a divisão automotiva da marca. É a mudança mais significativa desde 1997, quando o “Speedmark” — aquele símbolo alongado que hoje estampa carros de rua e o monoposto de corrida — nasceu. A expectativa natural era de algo futurista: mais tecnológico, mais digital, mais alinhado ao imaginário de velocidade e inovação que a Fórmula 1 vende. Não foi isso que aconteceu.

A McLaren foi buscar a nova assinatura tipográfica numa placa de garagem em Remuera, bairro de Auckland, Nova Zelândia. Era o posto de serviço da família de Bruce McLaren, fundador da equipe — o mesmo lugar onde ele construiu o carro da sua primeira vitória, ainda nos anos 1950. O letreiro datava dos anos 1920. Como resumiu um site especializado em carros, “o novo logo da McLaren, tecnicamente, existia antes da própria empresa existir”. A diretora de marketing da McLaren Racing, Lou McEwen, explicou a decisão dizendo que, ao revisitar a história compartilhada entre as duas divisões, ficou evidente o quanto da visão original de Bruce ainda pulsa no negócio hoje — e que a nova identidade tenta unir essa herança com a ambição futura da marca.

Por Que Voltar 100 Anos

Faz sentido perguntar: por que uma marca de ponta tecnológica, que vende performance e velocidade, decide se ancorar visualmente em algo de quase cem anos atrás? A resposta não é nostalgia gratuita. É estratégia de diferenciação. Qualquer equipe de Fórmula 1 pode contratar uma agência para desenhar um wordmark moderno, com curvas aerodinâmicas e paleta escura — isso é comoditizado, todo mundo faz. O que nenhuma outra equipe pode replicar é a história específica de Bruce McLaren construindo seu primeiro carro de corrida na garagem da família. Esse material é exclusivo, verdadeiro e impossível de copiar. É exatamente esse tipo de ativo — não estético, narrativo — que separa uma marca genérica de uma marca com raiz.

O mesmo raciocínio vale fora do automobilismo. Toda empresa tem um equivalente da garagem de Remuera: o primeiro cliente, o nome que quase foi escolhido no lugar do atual, o motivo real (não o motivo bonito de site institucional) que levou à fundação. A maioria simplesmente não olha para esse material antes de redesenhar a marca — prefere partir de referências de tendência, de concorrente, de Pinterest. Já escrevemos sobre como a origem geográfica de uma marca pode virar vantagem competitiva em vez de detalhe irrelevante — o caso da McLaren é a mesma lógica aplicada à história de origem da própria empresa, não só ao lugar onde ela nasceu.

O Que Fica e o Que Muda

O detalhe mais instrutivo do redesenho não é o que mudou — é o que a McLaren decidiu não tocar. O Speedmark, o símbolo mais reconhecido da marca, continua no centro da identidade. A empresa foi clara sobre o motivo: décadas de reconhecimento visual não se recriam do zero, e jogar isso fora só para parecer “novo” destruiria valor de marca acumulado há trinta anos. O que evoluiu foi a camada em volta — o wordmark, uma cor nova chamada Midnight, e a forma como as duas divisões (corrida e carros de rua) passam a usar o mesmo sistema visual, em vez de identidades levemente diferentes cada uma.

Essa distinção entre “o que é sagrado” e “o que pode evoluir” é a parte mais aplicável de todo o caso. Rebranding não precisa ser um evento binário — tudo novo ou nada muda. A pergunta certa antes de redesenhar qualquer marca é: qual elemento específico é responsável pelo reconhecimento que já existe, e qual pode ser atualizado sem prejuízo? Confundir as duas coisas é como trocar de nome comercial inteiro só porque o site ficou datado — resolve o problema errado e ainda cobra o preço de recomeçar o reconhecimento do zero.

Fileiras de letras em uma máquina de escrever antiga, em close, remetendo a tipografia de época
Foto: Pexels

A Tipografia Como Investimento, Não Decoração

Um ponto técnico do anúncio que passa fácil despercebido: a McLaren não pegou uma fonte pronta e ajustou o kerning. Encomendou uma família tipográfica própria, batizada de “McLaren Sans”, com um detalhe específico — um sublinhado sutil sob o “c” minúsculo, referência direta ao desenho original da placa de 1920. É um nível de investimento que a maioria das empresas nunca considera, porque trata tipografia como escolha estética secundária, resolvida em cinco minutos com uma fonte gratuita do Google Fonts.

Só que a fonte é, sozinha, um dos elementos que mais comunica antes que qualquer texto seja lido — a forma da letra já carrega peso, seriedade, modernidade ou informalidade antes do conteúdo entrar em jogo. Já detalhamos por que a diferença entre fonte genérica e fonte customizada é maior do que parece à primeira vista no post sobre tipografia de marca. O caso da McLaren é um exemplo extremo de comprometimento com esse detalhe: a fonte não só precisa parecer premium, ela também carrega uma referência histórica específica embutida no próprio traço. Isso é typography fazendo trabalho de storytelling, não só de legibilidade.

O Arquivo da Sua Marca É um Ativo, Não um Porão

Bruce McLaren morreu em 1970, em um acidente de teste, mais de cinquenta anos antes deste redesenho. E ainda assim a marca decidiu construir a identidade de 2026 em torno da visão dele. Isso só é possível porque a empresa manteve essa história viva, documentada, acessível — não é um acaso de arquivo empoeirado encontrado por sorte. Empresas que dependem de um fundador carismático enfrentam o risco inverso quando esse fundador sai ou falta: a marca inteira pode desmoronar junto, se a identidade nunca foi separada da pessoa. Voltamos a esse risco no post sobre sucessão de marca pessoal — o caso McLaren é, na prática, o contraponto positivo: um fundador que morreu há mais de meio século, mas cuja visão foi registrada e transformada em ativo de marca duradouro, em vez de morrer com ele.

Nenhuma empresa precisa de uma placa dos anos 1920 pra fazer esse exercício. Precisa de alguém disposto a perguntar: qual é a nossa versão disso? Qual decisão, frase, objeto ou momento da fundação a gente nunca usou porque parecia pequeno demais, e que na verdade é a coisa mais autêntica que a marca tem pra mostrar?

Carro de corrida em movimento numa pista, foto dinâmica de motorsport
Foto: Pexels

Três Perguntas Antes de Redesenhar Sua Marca

O caso McLaren pode ser resumido em três perguntas práticas, aplicáveis a qualquer negócio que esteja cogitando um redesenho de identidade:

1. O que já é reconhecido e não pode ser jogado fora? Antes de trocar tudo, identifique o elemento — cor, forma, símbolo, até um jingle — que carrega reconhecimento acumulado. Preserve esse item deliberadamente, mesmo que o resto mude.

2. Existe uma história real, ainda não usada, no arquivo da empresa? Antes de copiar referência de tendência ou de concorrente, procure no próprio histórico: o primeiro produto, o motivo real da fundação, um documento antigo, uma foto esquecida. Material genuíno bate referência bonita quase sempre.

3. Onde vale investir de forma desproporcional? A McLaren não gastou igualmente em tudo — investiu pesado em tipografia customizada porque decidiu que aquele era o ponto de maior retorno de diferenciação. Qual é o equivalente disso para o seu orçamento de marca: embalagem, atendimento, um único material impresso muito bem feito?

Marca forte não é a que muda mais rápido, nem a que resiste a qualquer mudança. É a que sabe, com precisão, o que preservar e o que pode — e deve — evoluir. A McLaren decidiu que a resposta para “como parecer mais moderna” estava enterrada há cem anos numa garagem no outro lado do mundo. A resposta para a sua marca provavelmente está mais perto do que parece — só precisa de alguém dispostos a procurar antes de inventar algo do zero.

Outras ideias para aprofundar.

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