Todo Mundo Quer um Labubu — Mas o Que Sustenta a Marca Quando o Hit Passa?

Quando quase todo o valor da marca mora em um só produto, o que resta se ele sair de moda?

Todo Mundo Quer um Labubu — Mas o Que Sustenta a Marca Quando o Hit Passa?

No início de setembro, a Pop Mart anunciou a chegada oficial do Labubu ao Brasil — depois de meses em que a bonequinha de dentes afiados e sorriso torto já circulava por aqui via importação paralela e revenda a preço de ouro. A notícia devia ser só motivo de festa para a empresa chinesa. Só que boa parte da cobertura especializada veio com uma pergunta embutida, quase um alerta: a Exame resumiu isso numa manchete direta, dizendo que a Pop Mart chega ao Brasil “em meio a dúvidas sobre dependência do Labubu”.

Repare no verbo: dúvidas, não elogios. A mesma empresa que transformou a bonequinha em item de luxo — a ponto de fechar, ainda neste mês, uma parceria com a grife francesa Moynat para bolsas de mais de US$ 2.500 estampadas com a criação do artista Kasing Lung — está sendo questionada no auge do próprio sucesso. E a pergunta serve pra qualquer negócio que já teve, ou está tendo agora, o próprio “momento Labubu”: o que sobra da marca no dia em que esse produto específico sair de moda?

O Fenômeno Que Vendeu Sem Precisar Explicar o Que Era

Vale reconhecer o mérito antes de ir direto ao risco. O Labubu conseguiu algo raro em colecionismo: transformar um brinquedo de nicho — figuras de vinil vendidas em caixinha-surpresa, sem saber qual variante vem dentro — num item de desejo transversal, do adolescente na fila do shopping à bolsa de grife de quem nunca fez fila por nada. Esse sucesso não se planeja com uma campanha de mídia; ele se constrói com escassez controlada, comunidade de colecionadores e um design estranho o bastante pra virar assunto por conta própria. É hype de verdade, não fabricado — e é por isso que ele engana: hype de verdade convence a própria empresa de que aquilo vai durar para sempre.

A Dúvida Que Vem Junto com o Sucesso Estrondoso

A dúvida da imprensa não é sobre a qualidade do produto nem sobre o tamanho do sucesso — é sobre concentração. Quando uma fatia desproporcional da receita, da atenção da mídia e da identidade pública de uma empresa passa a depender de um único personagem, a empresa deixa de controlar o próprio destino e passa a torcer para que o gosto do público não mude. A Pop Mart tem outros personagens no portfólio, apostas em cinema e agora uma incursão no mercado de luxo — sinais de que a própria companhia já sabe que precisa construir algo que sobreviva ao Labubu específico. Mas precisar fazer isso agora, no auge, já é o sintoma: diversificar depois que o hit explodiu é sempre mais caro e mais lento do que diversificar antes.

Esse mesmo mecanismo, numa escala bem menor, atropela negócios pequenos e médios com uma frequência que a maioria não percebe a tempo. Não é só sobre produto — é sobre qualquer coisa em que a marca deixou de ter plano B: o cliente que sozinho representa metade do faturamento, o canal de venda único que pode mudar de algoritmo da noite pro dia, o funcionário-chave sem quem ninguém atende certo tipo de pedido, a linha de produto que carrega a empresa nas costas enquanto o resto só existe no papel.

Cesta cheia de ovos, representando o risco de concentrar tudo em um único lugar
Foto: Pexels

O Erro Não é Ter um Hit. É Não Ter Nada Além Dele

Aqui vale uma distinção importante, porque a lição fácil de tirar desse caso — “cuidado para não ter um produto de sucesso” — é a errada. Ter um hit é ótimo. O problema nunca é o hit em si; é a ausência de qualquer outra coisa segurando a empresa em pé quando ele, inevitavelmente, perder força. Todo produto de desejo tem um ciclo, e nenhuma marca — nem a Pop Mart, nem a sua — prevê com exatidão quando esse ciclo vira. O que separa quem sobrevive ao fim de um hit de quem quebra junto com ele não é ter previsto a queda; é ter usado o dinheiro e a atenção do auge pra construir a próxima coisa, em vez de só reinvestir tudo em produzir mais do mesmo item já em alta.

É a mesma armadilha, vista de outro ângulo, que já tratamos por aqui ao falar de por que viralizar não é a mesma coisa que construir marca: um pico de atenção — seja de uma campanha, seja de um produto — é combustível, não é destino. O que a empresa faz com o dinheiro e a visibilidade que aquele pico gerou é que decide se ela vira uma marca duradoura ou só um caso de sucesso contado no passado.

Como Saber se Sua Empresa Já Está Nessa Armadilha

Não precisa ter dados sofisticados de consultoria para fazer esse diagnóstico — só honestidade em três perguntas simples, feitas com a planilha de faturamento aberta na tela:

  • Se o meu produto ou cliente mais forte sumisse amanhã, o que sobraria da minha empresa em seis meses? Se a resposta for “praticamente nada”, o risco já é real, independente de quão bem as coisas estejam agora.
  • Quanto do lucro do auge está sendo reinvestido em criar a próxima coisa, e quanto está só sendo usado para produzir mais do que já vende? Reinvestir tudo em escalar o hit atual é natural — mas também é a forma mais comum de chegar despreparado no dia em que ele perder força.
  • Se um concorrente copiasse exatamente o que eu faço hoje, o que ainda restaria de diferença entre nós? Se a resposta depender inteiramente daquele um produto, a marca em si — o nome, a reputação, a relação com quem compra — ainda não tem valor próprio suficiente para segurar o negócio sozinha.

Essa terceira pergunta é a que separa hype de marca de verdade. É exatamente o tipo de patrimônio que fica depois que a novidade passa — o que este blog já chamou de brand equity: o valor que o nome carrega por si só, mesmo quando o produto que o tornou famoso já não está mais em alta. Um hit vende uma vez, com sorte por alguns anos. Uma marca com equity de verdade continua vendendo depois que aquele hit específico virou peça de nostalgia numa estante.

Construir Mais de Uma Coisa Não é Traição

Existe uma resistência comum, principalmente em negócios pequenos, em “abandonar” o que já deu certo para investir em outra frente — como se isso desviasse atenção do que funciona. É o oposto: usar o que funciona hoje pra financiar o que vai funcionar depois é a definição mais prática de sustentabilidade de marca que existe. Pode ser um segundo produto, uma linha complementar, ou construir deliberadamente mais de uma frente dentro da mesma casa — o mesmo raciocínio por trás de como e quando uma marca só deixa de ser suficiente.

Prateleiras organizadas em um armazém, com produtos variados e bem distribuídos
Foto: Pexels

O Que Fica Depois que o Hype Passa

A Pop Mart provavelmente vai continuar vendendo Labubus por muito tempo — o fenômeno ainda está em ascensão, e a parceria com a Moynat mostra uma empresa competente tentando esticar o próprio sucesso para outros públicos e outras faixas de preço. O ponto não é prever quando isso vai acabar, porque ninguém sabe, nem a própria Pop Mart. O ponto é que a pergunta da imprensa — “e se depender só disso?” — devia ser feita por qualquer empresa no momento exato em que as coisas estão indo bem, não seis meses depois que o produto que sustentava tudo parar de vender.

Se algum produto, cliente ou canal específico está carregando o seu negócio inteiro nas costas agora, esse é o melhor momento possível para começar a construir o que vem depois dele — não porque ele vá parar de funcionar amanhã, mas porque, quando parar, você já quer ter outra coisa de pé.

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