Uma concessionária centenária, ainda em recuperação judicial, decidiu trocar de cara
Em agosto de 2026, a Light — concessionária de energia do Rio de Janeiro com mais de cem anos de história — apresentou uma nova identidade visual, desenvolvida em parceria com a agência anacouto. O projeto preserva a geometria modernista do desenho original, criado na década de 1960 pelo designer Aloísio Magalhães, mas reinterpreta as formas com curvas mais suaves. O verde, cor histórica da marca, ganha mais protagonismo e passa a dividir espaço com novos tons. A reformulação vem acompanhada de campanha publicitária 360º, jingle, reposicionamento digital e revisão do portfólio de marcas da empresa, sob o conceito “Tá tudo Light” e a assinatura “Prontos e Energizados”. Tudo isso acontece enquanto a companhia ainda aguarda o desfecho da recuperação judicial pedida em 2023.
Esse detalhe — a recuperação judicial em aberto — é o que transforma esse case em algo mais interessante do que “empresa grande atualiza o logo”. Ele coloca a Light bem em cima de uma linha que qualquer negócio em reconstrução, do tamanho que for, também vai pisar: a diferença entre uma marca nova que representa uma mudança real e uma marca nova que só promete uma.
O que a Light preservou — e por que isso pesa mais do que o que mudou
A decisão de manter a geometria original, a cor histórica e as referências à trajetória da empresa, em vez de começar do zero, é um sinal que merece atenção antes de qualquer crítica. Descartar cem anos de reconhecimento numa reforma de identidade é o caminho mais fácil — e o mais raso. Preservar o que já tem valor construído, enquanto atualiza o que precisa de atualização, é um trabalho mais difícil, e geralmente indica que alguém, no processo, se importou em entender a história antes de redesenhar por cima dela.
Mas identidade preservada com cuidado resolve só metade da pergunta. A outra metade não está no design — está no que acontece depois do lançamento.
A pergunta que separa rebranding estratégico de rebranding cosmético

Existe um teste simples, e desconfortável, para qualquer marca que anuncia uma reformulação de identidade durante um momento de crise ou transição: se você tirasse a identidade nova agora, o que exatamente, no funcionamento real da empresa, já teria mudado de forma comprovável no mesmo período? Não a comunicação — a operação. O atendimento, o produto, o processo, a decisão de liderança.
Isso não é uma acusação — é o teste que decide se uma marca nova está anunciando uma transformação que já está em curso, ou tentando adiantar, pela percepção, uma transformação que ainda depende de fatores fora do controle do departamento de marketing. A Light está no meio de um processo judicial que não termina com uma campanha publicitária, por melhor que seja; termina com uma decisão econômica e jurídica que a nova identidade, sozinha, não tem poder de resolver. Isso não invalida o trabalho — alinhar comunicação e visual a um momento de virada costuma ser exatamente o que uma marca em transição deveria fazer. Só coloca a responsabilidade em outro lugar: agora, a nova cara precisa ser sustentada pelo resultado.
Uma identidade nova não resolve uma crise. Ela decide se o mercado vai perceber a crise sendo resolvida — ou só maquiada.
Isso não é exclusivo de concessionária de energia em recuperação judicial
A tentação de “trocar de cara” antes de resolver o que realmente precisa mudar não é privilégio de empresa grande. Acontece igual em negócios pequenos: troca de sócio, mudança de modelo, um ano financeiro ruim, e a primeira ideia que aparece é “vamos renovar a marca, dar uma cara de recomeço”. Às vezes é a decisão certa. Às vezes é rebranding funcionando como anestesia — parece resolver, mas só adia o diagnóstico que precisava ter vindo antes de qualquer decisão visual. É um dos erros mais caros no rebranding: tratar a identidade como ponto de partida da mudança, quando ela deveria ser a consequência dela.
Como saber se é a hora certa da sua marca mudar de cara

- A mudança visual acompanha algo real e verificável no negócio — produto, atendimento, processo, liderança — ou só acompanha a comunicação?
- Você consegue descrever, numa frase, o que a empresa vai entregar de diferente a partir de agora, não só o que vai comunicar diferente?
- A mudança já é sentida por quem trabalha na empresa, ou só o time de marketing sabe que ela está acontecendo?
- Você está disposto a ser cobrado publicamente, daqui a um ano, pela promessa que essa marca nova está fazendo hoje?
Se a resposta a qualquer uma dessas perguntas for “ainda não”, talvez o momento não seja de trocar a identidade — seja de resolver o que a identidade, sozinha, nunca vai conseguir resolver por você.
O logo novo só vai valer a pena quando o resto da história terminar
O trabalho visual da Light é consistente, respeitoso com a própria história e tecnicamente bem executado — isso já separa o case de boa parte do que sai por aí como “rebranding” só no nome. Mas o verde mais protagonista e a assinatura “Prontos e Energizados” só vão significar alguma coisa de verdade quando a recuperação judicial terminar e o mercado puder comparar a promessa feita agora com o resultado entregue depois. Antes de decidir que a sua marca também precisa de uma cara nova, vale perguntar: o que, no seu negócio, já mudou de verdade — e o que ainda está esperando a identidade nova fazer esse trabalho por ele?




